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OIKOS *** Por um novo abrigo

 

Por Pedro Nabuco*

O documentário artístico realizado entre 2009 e 2011 Oikos (eco em grego, o lugar onde habitamos) abre uma janela para uma realidade escondida, apesar de cada vez mais conhecida. Aquela de nós mesmos, e da alteridade em vista dos outros, necessária para entender onde nos metemos. O seu drama está ali, e reside escondido no que não foi mostrado, como as crianças que lá estavam acompanhando sua mãe catadora, e que registramos andando naquela terra de ninguém, espécie de confim do mundo, onde o Estado de Direito apenas tangencia. Em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente, mesmo em face do fato de que as crianças não estavam trabalhando, aquelas imagens não fizeram parte da obra que montamos. Nem as lágrimas da mulher, que achava fetos no lixão.

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Reciclagem. Passados 16 anos do meu diploma em direito e 17 do meu engajamento no Fórum Global da Rio 92 – a Conferência Global que consagrou o princípio da precaução ambiental -, fui fazer pós-graduação em desenvolvimento sustentável e direito ambiental na Universidade de Brasília. Sendo um curso interdisciplinar e majoritariamente à distância, vislumbrei a liberdade almejada pelo pesquisador preocupado com o planeta. E lá formou-se a quarta turma deste curso criado originariamente para membros do Ministério Público, sendo aquela a segunda (e até onde eu sei, a última) turma aberta para os interessados de todas as áreas. Para lá afluíram pessoas de diferentes regiões do país, e foi lá onde Oikos começou.

Parecia um dream team aquele grupo que formamos na disciplina educação ambiental com as “meninas”, todas belas, pró-ativas e descoladas. Vamos fazer um curta-metragem, sugeri. E veio o Ronaldo Martins Alba, qual um Obelix, sugerir filmar no lixão da Estrutural. Ele sabia do que estava falando, e possuía a poção mágica para enfrentar o desafio, o estado guerreiro inerente ao seu sangue guarani.

Na gênese de Oikos fiz tudo aquilo que sabia morava fora da ortodoxia da indústria cinematográfica. A começar pelo uso contínuo da música, que deve ser usada com economia em documentários, onde mais valem os sons da realidade do que a vestimenta sonora de uma emoção, considerada por muitos como uma interferência indevida.  – “Vamos fazer sobre trilha musical, como Koyaaniskatsy“, propus, lembrando o filme de Godfrey Reggio, da trilogia derivada da palavra indígena hopsi Qatsi  – a vida sem equilíbrio.

Depois por trabalhar sem recursos com pessoas que em sua maioria não tinham vivência no audiovisual. Não era o caso da Alice Drummond, nossa narradora. (Koyaaniskatsy não tem narrador, mas nós achamos necessário informar). E mais ainda, começar um filme na academia. O longa-metragem que fizera sobre os Kalunga tinha sido premiado no festival Cine Eco em Portugal, onde o regulamento proíbe os filmes feitos na academia! Talvez porque na academia muitos queiram fazer ciência e não arte, exagerando no parlatório. Mas a verdade é que foi o status de membros da UnB que nos abriu as portas do lixão da Estrutural e que Oikos não se limitou à universidade.

E com tudo isso foi feita a obra de arte, realizada em um território interdependente, onde não existe acaso no sentido de negação.  A opção pelo viés artístico em assunto tão sério tinha uma razão: se alcançarmos o coração das pessoas, nosso objetivo de causar algum efeito, dentro de nossa impotência, será maior. O que prova que a arte é livre: quando alguém diz: “faça assim ou assado,” “daquele jeito não pode,” sempre vem o talento de um artista livre que subverte.

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Quando estava gravando, à distância um sujeito brandiu uma arma imaginária e gritou ao longe do alto de um monte de lixo: – “Eu te apago!”.  Eu sabia que ali havia muitos ex-presidiários, e entendi que aquele homem tinha direito a não ser visto naquela condição. Como a mulher que trabalhava à noite e depõe sem ser vista ou identificada, por sua solicitação expressa.

O que restou foi a onça que esculpimos, com a participação brilhante das mulheres que escreveram o texto, dos músicos envolvidos, especialmente do produtor musical Paulo Gabriel, do sax brilhante, do lamento da voz de minha irmã Isabel, sobre um tema derivado do lamento ibérico. E dos artistas profissionais que engajaram-se voluntariamente em Goiânia, extensão do Planalto Central do Brasil, onde montamos Oikos em primeiro corte para a Universidade e onde, dois anos depois, por teimosia, atingimos o corte final em um computador portátil, debaixo de uma mangueira.

Quando, recentemente, entrou em vigor a obrigatoriedade de acabarem os lixões, muitos seguiram, inclusive o da Estrutural, no Distrito Federal, tão perto da Esplanada e da Praça dos Três Poderes. Existe um fosso entre a letra da lei e os hábitos da sociedade de consumo e a podridão política. Basta dizer que, ao chegarmos à Estrutural num domingo, fomos impedidos de entrar por falta de segurança. Não foi o caso dos catadores, sub-cidadãos a quem se permite a vida em estado de risco. Assim, o documentário é o produto de duas tardes no lixão, com os seus fumos de metano entrando pela noite.

O alerta final sobre o metano – que também é produzido nos lagos de grandes hidrelétricas quando não se remove a vegetação, monumentos à concentração de poder e ao impacto ambiental -, é um grito para que busquemos uma civilização solar. Por que os impostos sobre a energia solar? Será que rumamos para o abismo, como no sugestivo título em forma de pergunta do livro do Edgar Morin?

 Esperança. O conceito de lixo zero, bravamente abraçado pela Plataforma de Ituiutaba em Minas Gerais é uma resposta em direção a um futuro mais viável, possível ou sustentável, porque alinhado com a equidade intergeracional. Anos depois de nossa aventura, Oikos encontra enfim o seu abrigo.

OIKOS BAndeira do Brasil

Na serra fluminense, em fevereiro de 2015.

*PEDRONABUCO Pedro Nabuco é Documentarista, formou-se em direito na PUC-RIO. Pós-graduado em desenvolvimento sustentável e direito ambiental pela Universidade de Brasília. Trabalhou como coordenador durante o Fórum Global da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, Rio 92. Foi curador do Cine Gaia, Festival Internacional de Cinema Ambiental por ocasião do bicentenário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

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